RESENHAS MÉDICAS

Atividade física: uma ação que previne

O sedentarismo é considerado hoje um dos principais fatores de risco morte, superando outros como diabetes, tabagismo, obesidade e hipertensão.

Para ter uma boa saúde e combater o sedentarismo não é preciso passar horas na academia, com exercícios de alto impacto ou procurar pelos “modelos” de beleza com abdomes esculpidos e corpos quase sem gordura aparente. Muito menos se comportar como um atleta de alto nível, sujeitando-se, inclusive, aos malefícios do excesso de atividade física.

O consenso entre os profissionais da área é que a atividade física deve se adaptar ao indivíduo, e não o contrário. Tratando o sedentarismo como problema de saúde publica, a solução foi encontrar uma atividade física ao alcance de todos, sem distinção sócio-econômica. Surgiu, então, o conceito de exercícios moderado impacto, feitos de forma acumulada, como caminhadas diárias.

“O sedentarismo só foi reconhecido como um novo fator de risco independente em 1992. Até então, tínhamos como principais fatores a hipertensão, o tabagismo e a obesidade, entre outros”, diz o especialista Victor Matsudo, coordenador do Centro de Estudos do Laboratório de Aptidão Física de São Caetano do Sul (Celafiscs) e do programa Agita São Paulo.

“Embora já houvesse evidencias da relação do sedentarismo com doenças crônicas, foi a partir do informe mundial da OMS de 2002 “Reduzindo riscos e promovendo uma vida saudável” que ficou claramente estabelecido o peso na mortalidade e morbidade da população mundial das doenças crônicas”, lembrou Miguel Malo, da OPAS-OMS. Segundo este informe da OMS, mais de 200 mil mortes foram atribuídas ao sedentarismo somente no ano 2000.

IMAGEM

Hoje, em todo o mundo, estima-se que 50% a 80% da população afetada pelos males do sedentarismo. Aliado à má alimentação e ao cigarro, esses males representam 70% dos fatores de risco de morte. “Hoje, isso é um consenso mundial. Sabemos que o sedentarismo mata e que é o mais prevalente de todos”, lembra Matsudo.
No início da década de 90, um levantamento sobre o nível de atividade física da população do Estado de São Paulo apontou que 69,3% dos adultos não eram ativos o suficiente para ter uma boa saúde. Outro levantamento realizado em 1997, este nacional, demonstrou que 60% dis adultos brasileiros não eram suficientemente ativos. Comparativamente, essa prevalência do sedentarismo como fatos de risco superou outros como diabetes (6,9%), obesidade (18%), hipertensão (22,3%) e tabagismo (37,9%).

Para o presidente da Sociedade Brasileira de Medicina Esportiva (SBME), Felix Albuquerque Drummond, “à medida que a pessoa ganha condição física, diminui o risco cardiovascular. Esse é o fator importante, principalmente porque é a maior causa de mortalidade no mundo. Também nos tem chamado a atenção a relação do exercício com a diminuição do câncer, um fator bem significativo”, lembra, em referência estudos que indicam tal prevalência em câncer de próstata, cólon, mama e pulmão.

“O sedentarismo é uma das grandes causas de obesidade. Como as pessoas têm ficado cada vez mais inativas, temos observado um aumento galopante da obesidade nos adultos e crianças”, destaca a presidente da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia (SBEM) , Marisa Helena César Coral. Para ela, “praticar atividade física é uma grande saída, a forma mais viável, é isso pode ser feito com medidas bem simples, como fazer caminhadas, passear com o cachorro e não usar escada rolante. É um remédio que é barato, não sai moda e só gasta sola de sapato. E é viável para qualquer classe social”, completa.

Para o presidente da Sociedade Paulista de Medicina Desportiva (SPAMDE), Samir Sal-ara o máximo de beneficio, e isso vira um ciclo, aonde nós temos essa grande oferta de situação que nos leva a um sedentarismo extremo”

Vencido o comodismo, são inúmeros os benefícios conquistados. Quando se faz uma atividade física regular, temos a liberação das endorfinas, que são substâncias que trazem o bem-estar e elevam a auto-estima do ser humano”, recomenda Samir Daher.

IMAGEM

“E dá pra começar, tenho vários colegas aqui no HC que já começaram a fazer alguma coisa, a caminhar, me encontram no corredor e falam que estão dormindo e se alimentando melhor. Eu acho que o caminho é esse mesmo”, completa o médico ciclista Maurício de Souza Lima.

De São Paulo para o mundo

Dados do Celafiscs dão conta de que, entre 1999 e 2002, houve um aumento de 6% na quantidade de pessoas que passaram a caminhar regularmente na região metropolitana de São Paulo. Isso Significa que pelo menos 520 mil paulistas passam a caminhar regularmente a cada ano.

O modelo de sucesso do Agita São Paulo acabou por chamar a atenção de outros países e instituições, entre elas a Organização Mundial de Saúde (OMS). “A cada ano temos um aumento de 2% da população fisicamente ativa, não por exercício rigoroso, mas por atividades como a caminhada. É o melhor resultado que conseguimos, porque fomos audaciosos. As pessoas estão caminhando mais, nenhum outro programa conseguiu isso no mundo é isso chamou a atenção da OMS”, comemora Victor Matsudo.

“Em 2002 a OMS designou como tema do Dia Mundial da Saúde a atividade física, tomando como exemplo importante o programa desenvolvido no Brasil pelo Agita São Paulo”, destaca Miguel Malo. Naquele ano, o slogan mundial da campanha foi “Agita Mundo – Move for Health”, em referência ao programa brasileiro, e incluiu mais de 2.000 eventos em todo o mundo. “O Agita Mundo é o modelo de São Paulo que o mundo adotou”, orgulha-se Matsudo.

No dia 2 de abril foi realizada a caminhada anual em comemoração ao Dia Mundial da Atividade Física, com saída da Avenida Paulista e chegada no Parque do Ibirapuera, na capital paulista. Este ano, o tema da campanha é “Atividade Física como Responsabilidade Social”; “É para que haja um maior envolvimento das empresas. A relação custo-benefício demonstra que nenhum programa no mundo tem resultados tão efetivos com tão pouco custo”, explica o coordenador do Agita São Paulo.

Prevenção como investimento

Segundo o Ministério da Saúde, anualmente mais de 40% das mortes registradas no país ocorrrem por conta das chamadas doenças crônicas não transmissíveis (DCNT), como inferto, derrame cerebral, enfisema, cânceres e diabetes, que juntas, são as principais causas de internação e óbito. Como fatores de risco dessas doenças, estão o tabagismo, a obesidade e o sedentarismo. Isso custa ao Brasil cerca de R$ 11 bilhões por ano em consultas, internações e cirurgias (incluindo transplantes). Em todo o mundo, cerca de 70% dos gastos em saúde estão diretamente ligados ao sedentarismo, segundo o Centers for Disease Control (CDC Atlanta).

Seja no combate ao sedentarismo, seja na prevenção de outras doenças, há o consenso hoje, por parte de todos os agentes envolvidos no sistema de saúde, de que a prevenção é o melhor remédio.

“Sabemos que um sedentário custa cerca de U$ 300 a mais por ano ao Estado”, compara Victor Matsudo, lembrando que isso se agrava ainda mais quando se estima o que cada individuo sedentário custa ao longo de toda sua vida.

“Nos EUA calcula-se que se haja 250 mil mortes por ano em conseqüência da inatividade física. A expectativa de gastos nos EUA, em função das conseqüências disso e das doenças crônicas, é de U$ 1 trilhão”, lembra Felix Albuquerque Drummond, presidente ds SBME.

Preocupado com isso, o setor privado de saúde suplementar tem investido cada vez mais em programas e ações em Medicina Preventiva, visando diminuir, inclusive, os custos finais dos serviços.

Grupos como a Unimed já contam com comitês que atuam na prevenção e promoção da saúde. Somente na Central Nacional Unimed, que conta com 508 mil usuários e comercializa planos corporativos em sua grande maioria, investimento em programas de saúde preventiva representa diminuição de até 90% nos custos em alguns casos. “Nós fazemos orientações dentro das próprias empresas, muitas vezes com um profissional para diminuir stress, ou dizer o que o associado deve fazer em casa para evitar ganho de peso, por exemplo”, explica Mohamad Alk, presidente da Central Nacional Unimed.

Ele explica que programas onde terapia de remédios é administrada na residência do paciente, a redução de gastos chega a 40%, comparado ao custo de internação em ambiente hospitalar. “No atendimento domiciliar, o homecare, temos a diminuição de custo entre 65% 90%, dependendo da patologia que a pessoa tem”.

Da mesma opinião compartilha a União Nacional das Instituições de Autogestão em Saúde (Unidas). Para a presidente da entidade, Marilia Ehl Barbosa, “a prevenção de doenças vem como uma saída para redução de custos. É preciso investir nisso, dar condições para o meu beneficiário se tratar melhor para que eu possa diminuir a complexidade da doença dele, diagnosticar antes uma possível doença que me traga aumento de custos”.

Segundo a entidade, no ano de 2005 foram gastos em exames cerca de 20,7% dos R$ 7,3 bilhões utilizados por todo o sistema de autogestões no país. Destes R$ 1,5 bilhão, 32% foram investidos em exames preventivos. Em 2004, 48,4% das mulheres realizaram exames de mamografia, contra 39% em 2003, o que também indica um aumento nesse tipo de prevenção.

De acordo com uma pesquisa da empresa de consultoria RH William M. Mercer, realizada com 265 empresas brasileiras, ficou demonstrado que 65% delas promovem programas de prevenção e qualidade de vida em seus domínios. Nestas, 40,8 das ações são voltadas para o condicionamento físico.

Para a presidente da Unida, as ações de prevenção vêm surtindo bons resultados, principalmente na mudança de comportamento dos beneficiários. “A gente vê como são muito importantes os programas de prevenção, não dá pra ser diferente. Todo mundo acaba sendo beneficiado, o paciente e o prestador de serviços. Estamos estimulando cada vez ,aos as empresas a investirem em prevenção de doenças e promoção da saúde”.

Fonte: Revista APM (Associação Paulista de Mediciana), #566 - Abril/06 (Atividade Física)

 

navega

CRB Imagem © 2010 - Todos os direitos reservados | Design: Marketeiros