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COMO SE TORNAR UM PACIENTE EFICIENTE

 

Linguagem técnica incompreensível e receituários indecifráveis são algumas das queixas mais comuns de pacientes em relação aos médicos. Por outro lado, é rotina dos profissionais de jaleco enfrentar atitudes inconvenientes ou inusitadas de pacientes e seus acompanhantes.


Dos consultórios saem histórias com personagens dos mais variados perfis – há os pacientes carentes, os desconfiados, os ansiosos, os sabichões... - e sobre as situações mais insólitas. Na lista, figuram desde descrições abstratas de sintomas a gente que chega com o diagnóstico na ponta da língua: aquele retardado no último episódio do seriado médico House. VEJA ouviu especialistas de cinco áreas para descobrir as principais reclamações dos doutores e , com base nas respostas, elaborar este guia sobre como aproveitar melhor o tempo de consulta e ajudar o médico a chegar ao diagnóstico correto.

 

Não vá ao consultório com um diagnóstico definido
Reclamação: o paciente compara seus sintomas com os de um parente ou se autodiagnostica com base em pesquisas na internet (veja a pág. 128). “Quando chega ao consultório com uma doença predefinida, o paciente preocupa-se menos com a descrição dos sintomas e amis em tentar convencer o médico de que está certo”, diz Bernardo Liberato, neurologista do Hospital Copa D’Or, no Rio de Janeiro
Como agir: deixe que o profissional analise o conjunto de sintomas, sem direcionar o diagnóstico. "Alguns pacientes fazem reclamações específicas, como 'sinto uma dor no rim direito que irradia para os pulmões', sem terem realizado nenhum exame", conta Alfredo Salim Helito, clínico geral do Hospital Sírio-Libanês, em São Paulo. Isso pode interferir na avaliação do médico.

 

Vá direto ao ponto
Reclamação: o doente desfia uma narrativa detalhada sobre o dia em que sofreu uma falta de ar ou taquicardia
Como agir: "Uma boa forma de começar a consulta sem rodeios é completar a frase: 'Tudo estava bem até que ... ", sugere a pneumologista Iara Nely Fiks, do Hospital São Luiz, em São Paulo. Os  dados relevantes são investigados pelo médico - os irrelevantes só o atrapalham e aborrecem. Prepare-se também para responder a perguntas sobre a periodicidade, a constância, a intensidade e os fatores de melhora e piora do sintoma.

 

Leve apenas os exames mais recentes
Reclamação: pacientes que carregam uma sacola recheada de exames antigos provocam arrepios nos doutores. Para não frustrar o paciente, o profissional acaba perdendo parte da consulta vendo exames que dificilmente colaboram para o diagnóstico.
Como agir: apresente hemogramas e exames de urina realizados há, no máximo, um ano. Quanto a exames de imagem, como tomografia e radiografia, leve apenas o mais recente - a não ser que outros sejam solicitados, claro. E atenção com a organização: certifique-se de que o médico não vai encontrar um laudo de tomografia no envelope do raio X.
Seja claro ao descrever um sintoma


Reclamação: como a tolerância à dor é individual, "a pior dor do mundo" é uma expressão subjetiva, que pouco ajuda o médico. Superlativos para descrever a dor são mais adequados ao pronto-socorro, onde há necessidade de administração imediata de analgésico. Entre os pediatras, a queixa refere-se à medição da febre. "Não basta dizer que o filho está quentinho há três dias. É importante saber se a temperatura da criança chegou a 37 ou a 39 graus", diz Fabio Ancona Lopez, vice-presidente da Sociedade Brasileira de Pediatria.
Como agir: dizer que fica impossível digitar quando a dor no punho aparece, por exemplo, é uma forma mais clara de demonstrar a intensidade do sintoma.
Outra opção é dar notas de 1 a 10. "Esse recurso ainda ajuda o médico a avaliar a evolução de um tratamento", diz Bernardo Liberato. E, quando há desconfiança de febre, que tal recorrer ao termômetro antes de ligar para o pediatra?

 

Seja um acompanhante participativo - mas sem exageros
Reclamação: acompanhantes de crianças ou de idosos que não conhecem a rotina do doente e, assim, ignoram informações importantes não são a melhor escolha. Divergências de opinião também fazem parte da rotina do consultório: o pediatra Fabio Lopez conta que já viu uma babá gesticulando discretamente, desmentindo relatos da mãe sobre os hábitos do filho.
No outro extremo está o parente ansioso, que não deixa o idoso se expressar durante a consulta
Como agir: o ideal é que o acompanhante conviva com o doente. Assim, ele poderá responder adequadamente às perguntas do médico e evitar que o paciente, quando idoso, omita informações. Mas não seja o protagonista da consulta: como algumas reclamações relevantes podem ser constrangedoras,  procure deixar o idoso a sós com o médico por alguns minutos.

 

Tenha uma lista de seus remédios
Reclamação: nada irrita tanto esses profissionais quanto, ao indagar sobre os medicamentos que o paciente toma, ouvir algo como "aquele amarelinho, com um risquinho no meio". Alguns pacientes chegam a sacar o celular e ligar para casa, na esperança de que o filho ou a faxineira encontre a caixinha do remédio e informe os dados. E lá se vão dez minutos da consulta e uma boa dose da paciência do médico...
Como agir: como alguns medicamentos interferem na ação de outros, essa é uma informação vital para o médico. Portanto, tenha em mãos a lista dos remédios que toma diariamente, incluindo a dosagem. "E tão importante quanto informar o nome correto é saber quais medicamentos já provocaram reações adversas no passado", completa Silvia Pereira, presidente da Sociedade Brasileira de Geriatria e Gerontologia.

 

Não saia da consulta com dúvidas
Reclamação: o paciente deixa o consultório confuso, com dúvidas a respeito do diagnóstico ou do tratamento 
Como agir: cabe ao médico perguntar, ao final da consulta, se todas as questões foram esclarecidas.
Caso não o faça, o paciente deve deixar claro que não está convencido do diagnóstico ou questionar o tratamento. "Para manter a confiança no médico, é importante que o paciente termine a consulta 100% seguro", diz Bernardo Uberato. Dica: na sala de espera, faça uma lista com todas as questões que tem em mente.

 

Por que eles odeiam o dr. Google ...
A internet é uma fonte inesgotável de informações sobre doenças, sintomas, tratamentos e novos medicamentos, dispostas tanto em revistas científicas renomadas como em blogs escritos por leigos. Para os médicos, porém, há vários efeitos colaterais na consulta ao dr. Google:
• independentemente dos sintomas, o paciente tende a cair em sites sobre doenças graves. "Urna pesquisa sobre dor abdominal vai facilmente levar a um site sobre câncer de intestino", diz o clínico geral Alfredo Salim
• o excesso de informação confunde o doente e afeta sua confiança no médico
• pacientes sugestionáveis podem passar a "sentir" os sintomas que o encaixam em determinado diagnóstico. O mesmo pode acontecer com os efeitos colaterais de um medicamento recém-receitado
• quando lê sobre uma droga que acaba de ser lançada, o paciente insiste no novo tratamento. "Cada caso deve ser analisado isoladamente. O idoso, que tem a função hepática sobrecarregada pela idade e pelos remédios, requer medicamentos consagrados", explica a geriatra Silvia Pereira

... e quando ele pode ser um aliado
Os sites especializados em saúde mexem com o brio dos médicos. Afinal, depois de algumas horas de pesquisa na web, muitos pacientes sentem-se à altura de um profissional que passou anos se dedicando aos estudos. Mas a "concorrência" também traz vantagens:
• a internet permite ao paciente obter dados sobre o médico antes da consulta.
Uma busca rápida pode chegar a currículo, fotos, notícias e possíveis processos contra o profissional
• o doente bem informado toma decisões mais conscientes a respeito de sua saúde
• com pacientes mais questionadores, os profissionais são incentivados a se manter atualizados
"Os médicos reclamam daqueles pacientes que se mostram desinteressados e não seguem suas recomendações", conta Arthur Kaufman, professor  da disciplina de psicologia médica da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo. Mais informados, os doentes preocupam-se mais com as orientações do médico.

Exame nota 10
Veja as dicas do médico Carlos Ballarati, presidente da Sociedade Brasileira de Patologia Clínica, sobre o preparo adequado para obter um exame de sangue fiel:
• mantenha a rotina alimentar nos dias que antecedem a coleta. Evite, assim, extrapolar na feijoada, pois alimentos gordurosos podem elevar temporariamente a taxa de triglicérides
• bebidas alcoólicas, se ingeridas até três dias antes da coleta, podem interferir nos níveis de triglicérides, glicose e enzimas hepáticas
• qualquer medicamento, mesmo de uso eventual, deve ser informado ao laboratório e ao médico. Com fator anticoagulante, a aspirina que tratou uma crise de enxaqueca na véspera, por exemplo, pode alterar o exame que avalia o tempo de coagulação do sangue
• se o preparo inclui jejum de doze horas, respeite esse período. Passar mais tempo sem se alimentar pode ocasionar falso resultado de hipo ou hiperglicemia.

Fonte : Revista Veja - Edição do dia 20 de julho de 2011

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